Por Erick Rodrigues

Quando estreou nos cinemas em 1998, “O Show de Truman” não trazia necessariamente um conceito novo. Lá atrás, em 1949, o escritor George Orwell apresentou “1984”, um romance distópico sobre a vigilância de um Grande Irmão. O filme de Peter Weir, roteirizado por Andrew Niccol, focou em uma forma de monitoramento e manipulação da vida que agora, 20 anos depois do lançamento, reflete uma sociedade que escancara e espetaculariza o dia a dia.

Apenas alguns anos depois de “O Show de Truman”, as televisões viraram instrumentos para que espectadores acompanhassem a “rotina diária” de pessoas confinadas em uma casa, monitorada por um “Big Brother”. Depois, outras atrações do gênero surgiram e, até hoje, ocupam as grades de programação dos canais para mostrar relacionamentos, habilidades culinárias, nudistas, composições familiares e por aí vai. Todos “reality” shows, ainda que muitas situações e reações sejam fabricadas. Um gênero que reforçou ainda mais as palavras do dramaturgo Nelson Rodrigues: “a televisão matou a janela”.

O fascínio pela “realidade” das pessoas não parou nisso e vieram as redes sociais, mais instrumentos para a vigilância da vida alheia, alimentadas por conteúdos que mostram por onde alguém passou, o que comeu, o que sentiu, o que comprou e, geralmente, uma necessária e falsa aparência de perfeição e felicidade.

Seguidores de redes sociais e espectadores de reality shows estão, de alguma forma, retratados em “O Show de Truman”. Protagonizado por Jim Carrey, o longa mostra a vida de um homem que, sem saber, cresceu dentro de um programa de realidade. Truman teve o nascimento, o primeiro dia na escola, as frustrações, os grandes amores, o casamento e o caminho diário para o trabalho registrados por inúmeras câmeras.

Ignorando a fama de estrela de televisão, o personagem de Carrey nem sonha que teve a vida toda conduzida pelas escolhas de Christof (Ed Harris), o diretor da atração, que manipula situações e até fenômenos naturais para que o protagonista siga relevante para os espectadores. Para isso, não exita em determinar a “morte” do pai de Truman ou retirar do “elenco” o grande amor dele, direcionando o interesse pela mulher já escalada para desempenhar o papel de esposa.

Algumas interferências naquela realidade não tão real fazem Truman descobrir sua condição de estrela involuntária de reality show. Assim, ele passe a questionar os caminhos até então determinados pela vontade do diretor e das falsas relações estabelecidas.

Divulgação

Inteligente e repleto de diálogos inspirados, duas décadas depois, o roteiro de “O Show de Truman” impressiona pela precisão com que retrata o mundo atual. Primeiro, pode servir como inspiração para o exercício do livre-arbítrio e a contestação de constantes manipulações. Sair da ignorância é sempre melhor do que se deixar conduzir.

Se, naquela época, quem via “O Show de Truman” tinha indícios de uma sociedade que valoriza o espetáculo do dia a dia, quem vê o filme hoje percebe o quanto a história conversa com os tempos atuais. O fascínio pela vida alheia nunca foi tão exposto. Acompanhamos pessoas vivendo sob o mesmo teto, sendo vigiadas por várias câmeras; seguimos artistas ou ilustres desconhecidos para sabermos de suas rotinas, bem mais glamourizadas do que realmente são; consumimos os flagrantes de famosos que apenas passeiam na praia ou compram sorvete na esquina.

Mais do que isso: nós mesmos alimentamos a avidez dos seguidores e conduzimos seus pensamentos, mostrando felicidade onde não há, opiniões fortes onde não existe raciocínio e segurança onde só se encontra um bando de incertezas. Para as muitas câmeras do dia a dia, no entanto, só devemos expor os melhores ângulos. Ao contrário de Truman, sabemos que estamos sendo vistos e continuamos nos expondo e criando ficções para a plateia.

O elenco é parte importante do êxito do filme. Jim Carrey, mesmo com suas tradicionais caras e bocas, mostra talento para interpretações mais complexas e sutis. Um ótimo Ed Harris também expõe ao espectador as contradições do diretor do reality. Laura Linney, sempre certeira, acrescenta muito, mesmo em um pequeno espaço.

“O Show de Truman” foi lançado há 20 anos, mas, com certeza, faz mais sentido agora, quando, mesmo sem a ignorância do personagem de Carrey, estamos sendo vigiados em programas de TV, vídeos no Youtube, fotos no Instagram e câmeras de segurança. A rotina do dia a dia é um espetáculo. Sorria, você está sendo filmado ou, então, se filmando.

1 Comentário

  1. O autor desse texto está de parabéns. Muitas reflexões importantes e objetivas!

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