Por Erick Rodrigues

Dono de uma filmografia extremamente diversificada, o diretor Steven Spielberg também pode ser considerado um colecionador de sucessos. Desde o começo da carreira, o cineasta se mostrou interessado em produzir blockbusters, que levassem ao público grandes entretenimentos sem recorrer a escolhas mais complexas nos roteiros. Entre tantos campeões de bilheteria, “O Resgate do Soldado Ryan”, que está completando 20 anos de lançamento, é uma das obras que melhor reflete os caminhos que construíram a carreira do diretor.

A preferência por projetos grandiosos fez Spielberg encontrar no filme a oportunidade perfeita para reafirmar todas as características da obra dele. Contando com Tom Hanks na linha de frente da batalha, uma parceria que se repetiria em longas como “Prenda-me Se For Capaz”, “Jogo de Espiões”, e “The Post”, o diretor mostrou que a escolha por um filme de guerra era inevitável na carreira dele.

Em “O Resgate do Soldado Ryan”, Hanks vive o capitão John Miller, que desembarca com seus homens na Normandia, em plena Segunda Guerra Mundial, e logo recebe uma missão arriscada: procurar um soldado em um território dominado pelos inimigos alemães. A tarefa de encontrar James Ryan (Matt Damon), cujos três irmãos morreram em outra frente da guerra, se mostra perigosa e ingrata, já que parceiros de combate de Miller acabam arriscando as vidas na busca pelo misterioso soldado.

Filmes de guerra, em geral, proporcionam sequências grandiosas de batalhas, que exigem sincronicidade de elenco e efeitos especiais convincentes. Nos primeiros minutos de “O Resgate do Soldado Ryan”, as cenas dos soldados chegando a uma praia na Normandia, em 1944, mostram bem as melhores qualidades de Spielberg como cineasta. O olhar dele para a produção de grandes eventos cinematográficos permite a criação de momentos tensos, que, logo de cara, já servem para prender o espectador em frente à tela.

A câmera de Spielberg tem um papel fundamental para a imersão do espectador na história. Na sequência inicial, que reflete melhor essa qualidade, a lente da câmera serve para tentar transmitir o máximo do clima de uma batalha ao espectador, colocando-o “dentro” da cena. O movimento nervoso e intenso da filmagem conduz o público por todo o espaço geográfico da ação, desde a saída do mar até a tomada das posições inimigas.

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Toda a grandiosidade das cenas iniciais também está ali para mostrar as consequências arrasadoras e violentas de uma guerra. Aí entra o trabalho dos efeitos especiais, que produz recursos cenográficos como a água do mar tomada pelo sangue dos soldados, explosões devastadoras e corpos mutilados pelo combate. A sonorização, sempre importante em filmes do gênero, traz resultados positivos para o longa.

Diante de uma proposta para criar imagens grandiosas, o roteiro de “O Resgate do Soldado Ryan” segue um caminho mais simples, tipo de escolha que também marca a filmografia de Spielberg. Escrita por Robert Rodat, a história recorre a uma fórmula previsível, que permite ao espectador adivinhar a ordem dos acontecimentos. Alguns recursos, como sacrifícios e mortes de soldados ao longo das batalhas, podem até ser considerados clichês do gênero. De uma forma geral, as quase três horas do filme são bem preenchidas, com cenas de batalhas intercaladas a sequências que servem para reduzir a adrenalina.

Não há grandes atuações do elenco, outra característica também comum na obra de Spielberg, que, de uma certa forma, não exige muito dos atores. O desempenho de Tom Hanks é o já tradicional “piloto automático” do intérprete, que encontrou uma forma de fazer sempre um tipo que se encaixa em histórias diferentes, variado apenas por um ou outro trejeito.

O resto do elenco, ainda pouco experiente na época, cumpre o que é determinado e não compromete o resultado final, como são os casos de Matt Damon, Edward Burns e Vin Diesel. Aliás, o grande trunfo da participação do futuro astro da franquia “Velozes e Furiosos” é que ela dura pouco e isso impede que a falta de talento dele seja mais evidente.

“O Resgate do Soldado Ryan”, duas décadas após a estreia, acabou se mostrando o reflexo ideal da carreira de Steven Spielberg, um diretor seduzido pela ideia de produzir grandes eventos cinematográficos. Para isso, e nesse clássico de guerra não é diferente, o cineasta cria grandes e impactantes sequências, sustentadas, geralmente, por roteiros simples e de fácil “digestão” pelo público. A fórmula, mesmo que possa ser contestada e criticada, gerou filmes icônicos para a indústria do cinema, sendo este um dos mais festejados.

O RESGATE DO SOLDADO RYAN

COTAÇÃO: bom