“O Insulto” e o reflexo universal da intolerância que separa as pessoas

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Por Erick Rodrigues

Assisti “O Insulto”, pela primeira vez, há alguns meses e, já na época, era impressionante como o filme libanês compreendia o mundo que pretendia retratar. Nos últimos dias, a história voltou a ocupar os meus pensamentos, especialmente pelo ambiente acirrado e violento que vivemos aqui no Brasil, aprofundado pela campanha eleitoral deste ano.

Não, “O Insulto” não retrata nenhum aspecto da política brasileira, mas faz todo sentido para a realidade atual, não só do Brasil, mas do mundo inteiro. Apesar de, aparentemente, falar sobre uma questão muito específica do cotidiano do Líbano, o filme do diretor Ziad Doueiri consegue refletir uma característica universal e, infelizmente, cada vez mais perceptível no convívio real e virtual das pessoas: a intolerância.

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, “O Insulto” começa quando o mecânico Tony (Adel Karam) descobre que a calha do apartamento dele não está regular e molha as pessoas que passam na rua. O problema é percebido pelo mestre de obras Yasser (Kamel El Basha), contratado para prestar serviços naquela região de Beirute, na capital libanesa, e que se oferece para consertar o defeito.

No contato entre eles, Tony deixa claro que não quer que Yasser conserte a calha, mas o mestre de obras faz o serviço mesmo sem a aprovação do libanês. Logo, a negativa inicial se transforma em um insulto a Yasser e ao fato de ele ser um refugiado palestino que se abrigou no Líbano. Inconformado com a presença daquele homem, o mecânico usa um fato político para dizer que pessoas da nacionalidade do mestre de obras deveriam ter sido exterminadas.

A agressão verbal de Tony acaba tirando a razão de Yasser, que parte para a violência física e provoca uma lesão no mecânico. Toda a briga, iniciada por aquele insulto, vai parar no tribunal e, surpreendentemente, toma proporções sequer imaginadas pelas partes envolvidas. A pendência deixa o campo pessoal e acaba expondo feridas históricas e culturais profundas do Líbano, que acirram os ânimos de outras pessoas que se identificam com a disputa travada entre os dois personagens na Justiça.

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Em um primeiro contato com a trama de “O Insulto”, pode prevalecer a sensação de que se trata de um filme sobre uma realidade específica do Líbano, mas, com o andar da história, vai ficando cada vez mais claro que tudo aquilo é universal e pode ser aplicado a outras nações do mundo, que vivem momentos de violência e intolerância entre as pessoas, como no Brasil.

O sentimento de Tony sobre a presença de Yasser em território libanês, mais do que revelar rixas históricas e culturais entre povos, expõe uma profunda incapacidade de olhar para o outro com empatia. O mecânico se apega a diferenças e preconceitos que abrem um abismo entre eles, ao invés de buscar uma ponte que os ligue. O insulto, considerado algo simples pelo libanês, vira uma “bola de neve”, que ganha tamanho e potência agregando violência, irracionalidade e acirrando os ânimos de todo um povo, seja pela necessidade de validar aquele comportamento ou se defender dele.

Quando a trama do filme se concentra no julgamento da agressão de Yasser, “O Insulto” ganha contornos ainda mais complexos, mostrando a humanidade dos dois lados da questão e a dimensão não pretendida que aquela intolerância tomou, separando pessoas que sequer estavam envolvidas no problema e tendo efeitos severos sobre os envolvidos, inclusive trazendo à tona traumas do passado.

“O Insulto” é muito mais do que um filme sobre rixas históricas entre libaneses e palestinos. O filme é um espelho, que reflete a intolerância crescente do mundo, onde as pessoas se mostram cada vez mais incapazes de ouvir, entender e respeitar as diferenças. Enquanto isso acontecer, atitudes que demonstram o lado intolerante do ser humano vão continuar gerando mais insultos, violência, ódio e, quando percebermos, estaremos separados por abismos intransponíveis, se é que já não estamos. Do fundo do coração, espero que não tenhamos chegado a esse ponto.

O INSULTO

COTAÇÃO: excelente