Jornada previsível de “Lady Bird” ganha charme com abordagem e personagens afetuosos

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Por Erick Rodrigues

A adolescência é uma fase de descobertas e sentimentos contraditórios, até mesmo para aqueles que se dizem não tão afetados por ela. Insegurança, aceitação, conflitos com os pais e sexualidade são alguns temas comuns a essa fase e que também estão presentes em “Lady Bird – A Hora de Voar”, filme escrito e dirigido por Greta Gerwig e que conseguiu comemoradas indicações ao Oscar e dois Globos de Ouro, de melhor filme de comédia e melhor atriz para a protagonista Saoirse Ronan.

Na história, Christine (Saoirse Ronan) não é uma aluna exemplar, mas alimenta a expectativa de conseguir uma vaga em uma renomada universidade, de preferência bem longe de Sacramento, onde vive com a família. A jovem, que decidiu ser chamada de Lady Bird, sofre com os sentimentos contraditórios da idade. Ama Larry (Tracy Letts), o pai, mas acha vergonhoso que ele a deixe na porta da escola. Já em relação ao irmão, há sempre aquele sentimento de implicância.

Com Marion (Laurie Metcalf), a mãe, no entanto, a relação é mais complexa. O evidente amor mútuo é acompanhado por contestações de autoridade, críticas comportamentais e alguns abismos de gerações que se formam com frequência. A mesma mãe que é capaz de um gesto de afeto e que só quer que a filha tenha as melhores opções de vida também é aquela capaz de comentários ásperos e reações controversas.

Como não podia deixar de ser, Lady Bird também enfrenta questões relacionadas às amizades e aceitação dos colegas; ao ensino católico do colégio em que estuda; e aos primeiros amores. Os relacionamentos com Danny (Lucas Hedges) e Kyle (Timothée Chalamet) fazem com que ela descubra aspectos positivos e negativos sobre sexualidade e autoafirmação.

Simples, “Lady Bird” é uma jornada de amadurecimento de uma jovem, que vive intensamente as dores e os prazeres das descobertas de uma vida adulta que se apresenta. O roteiro tem um tema relativamente comum, mas ganha um charme especial com algumas características. A primeira delas é mostrar todos os conflitos da adolescência do ponto de vista feminino, abordando as questões da fase de maneira natural e delicada. É bom ver, para variar, o cinema norte-americano fugir dos estereótipos e das comédias pastelão que Hollywood costuma fazer sobre esse período.

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Outra característica que faz bem ao filme é a construção dos diálogos e dos personagens, carregados de afeto e, especialmente, de humanidade. Greta Gerwig, indicada ao Oscar pelo roteiro e direção, consegue criar falas interessantes, que misturam sentimentos e intenções, e tipos extremamente críveis, que estabelecem empatia imediata com o espectador.

Tudo isso, é claro, ganha mais força com o desempenho do elenco, especialmente o de Laurie Metcalf, que apresenta uma mãe capaz de arroubos de felicidade e aspereza com a filha. É nós momentos de crítica e contestação dos desejos de Lady Bird que a atriz encontra suas melhores cenas, mostrando afeto, insegurança e o desejo de proteger a filha das frustrações do mundo, tudo ao mesmo tempo. Saiorse Ronan, limitada até aqui por outros papéis, encontra o caminho da personagem e entrega uma jovem carismática e afetada pelo turbilhão de emoções da adolescência.

Há, no entanto, alguns aspectos que impedem “Lady Bird” de voar mais alto nas telas. Apesar da abordagem acertada, o filme, que já traz uma jornada previsível para a personagem, se deixa levar por escolhas fáceis, que tornam alguns desfechos óbvios demais. Mesmo com uma trajetória cristalina para a adolescente, o roteiro poderia encontrar soluções mais inteligentes para certas situações, o que impediria o espectador de prever sequências inteiras da história. A narrativa sempre constante, que chega a se contrapor, em alguns momentos, a abordagem da trama, também impede que o filme decole mais.

Lançado em DVD e cópia digital, “Lady Bird – A Hora de Voar” já tem o mérito de fazer com que um cinema mais independente esteja entre os principais assuntos da indústria. Com um olhar afetuoso sobre a trajetória de amadurecimento de uma adolescente, o filme é capaz de criar empatia com o público e só não vai além por ceder a escolhas fáceis guiadas por uma jornada previsível.