“Central do Brasil” completa 20 anos e se mantém como um marco do cinema brasileiro

Foto: Divulgação

Por Erick Rodrigues

Depois de períodos cíclicos e desregulares, o cinema brasileiro conheceu sua pior crise no início dos anos 90, quando a produção de filmes foi reduzida a praticamente zero por conta da extinção da Embrafilmes e outros órgãos que contribuíam com o mercado cinematográfico nacional. A chamada “Retomada” veio alguns anos depois e consagrou “Carlota Joaquina – Princesa do Brazil” como o longa que marcou essa nova fase da sétima arte verde-amarela. Mal se sabia que, em pouco tempo, surgiria um marco do nosso cinema, que já é considerado um clássico: “Central do Brasil”.

Lançado há 20 anos, ainda quando a produção nacional de filmes se firmava e procurava espaço no mercado interno, o longa do diretor Walter Salles foi além e fez sucesso em outros países. Venceu o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e recebeu uma indicação ao Oscar pela mesma categoria, sendo injustamente derrotado, na época, pelo italiano “A Vida é Bela”. A principal premiação de Hollywood também reconheceu o trabalho de Fernanda Montenegro como protagonista e indicou a maior intérprete brasileira na categoria de melhor atriz, o que serve de prêmio, já que quase nunca a indústria cinematográfica norte-americana entrega a estatueta para atrizes de fora.

Com roteiro de João Emanuel Carneiro, que hoje migrou para as novelas e escreveu sucessos televisivos como “A Favorita” e “Avenida Brasil”, o filme pode parecer, duas décadas depois, datado para um novo público, afinal, as cartas que Dora (Fernanda Montenegro) escreve na maior estação de trem do Rio de Janeiro praticamente caíram em desuso. Esse estranhamento pode se estender a outros aspectos estéticos e comportamentais da trama, mas, como em todo clássico, depois desse tempo, o principal permanece intacto: a emoção.

Solitária, a protagonista de “Central do Brasil” carrega as marcas de uma vida de sofrimento e busca desesperadamente amor. Enganando as pessoas que precisavam de ajuda para escrever e enviar cartas a familiares, Dora acaba unida ao menino Josué (Vinícius Oliveira), que perde a mãe e procura uma forma de encontrar o pai, que mora no interior do Nordeste.

Depois de algumas escolhas erradas para se ver livre do garoto, Dora embarca em uma viagem pelo Brasil para encontrar o pai de Josué. No caminho, no entanto, os dois constroem uma bela história sobre amizade, generosidade e, especialmente, amor, sentimento esse tão desejado pelos dois personagens.

A escolha do roteiro em construir a história como um road movie, gênero geralmente usado para mostrar personagens e suas transformações. Ao embarcarem em uma jornada pelo interior do país, Dora e Josué, cada um com seus motivos, na verdade, mergulham para dentro deles mesmos e percorrem longas estradas internas em busca de uma vida menos amarga.

Além de carregar o país no título, “Central do Brasil” parece ter a intenção de mostrar ao público, também, um retrato de um povo que, geralmente, é apresentado apenas pelos clichês que envolvem praia, carnaval, futebol e violência. Sob a direção de Walter Salles, vemos os rostos de um Brasil marcado por miséria, generosidade e fé incondicional.

Confesso que, quando questionado, não consigo escolher o melhor filme que já vi na vida. Uma certeza, no entanto, surge com essa pergunta: “Central do Brasil” é um deles. O filme de Walter Salles é um jovem de 20 anos, mas não precisou do tempo para ser um clássico do cinema brasileiro.

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