“Aos Teus Olhos” retrata o poder da imprecisão e do julgamento dos “tribunais da internet”

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Por Erick Rodrigues

A facilidade de acesso e o alcance da internet nos dias de hoje trouxeram inegáveis novas possibilidades de comunicação e informação, mas, ao mesmo tempo, criaram uma possibilidade a mais de disseminação de conteúdo impreciso e, até mesmo, extremamente falso. A situação vai além: muitas vezes, após a absorção desses dados nas redes sociais e por conta de uma confortável “proteção” que a internet proporciona, muitas pessoas “vestem” um comportamento de inquisidor para julgarem e condenarem o outro, utilizando discursos que revelam preconceito, ódio e intolerância.

Todo esse cenário, cada vez mais comum, é tema do filme “Aos Teus Olhos”, da diretora Carolina Jabor. A trama mostra Rubens (Daniel de Oliveira), o professor de natação de um clube que tem a vida modificada depois do desabafo de uma mãe nas redes sociais. Sempre carismático e atencioso com as crianças, tudo muda quando ele é acusado pelo aluno Alex (Luiz Felipe Melo) de ter dado um beijo na boca dele no vestiário, o que provoca a reação dos pais do garoto.

Diante do relato do menino, o pai de Alex, vivido pelo ator Marco Ricca, vai ao clube e exige que a diretora, papel de Malu Galli, expulse o professor. Além das ameaças de tirar a criança das aulas, o pai também diz que pode procurar a polícia para esclarecer a situação. No primeiro momento, a diretora opta pela cautela e se compromete a investigar os acontecimentos.

Quem esperava providências e consequências mais rápidas é a mãe do garoto, interpretada por Stella Rabelo. Questionando o posicionamento inicial do ex-marido, que aceita a investigação proposta pela diretora, a mulher se revolta e vai às redes sociais para relatar as supostas atitudes do professor, o que rapidamente gera uma comoção dos pais dos outros alunos. Em uma velocidade incontrolável, as acusações contra Rubens ganham a internet e os noticiários, gerando hostilidades e agressões contra o professor, ao mesmo tempo em que ele é levado à polícia para prestar esclarecimentos.

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A grande qualidade do roteiro de “Aos Teus Olhos” é o uso da ambiguidade para criar questionamentos na cabeça do espectador. Em nenhum momento, fica claro que o abuso do professor realmente aconteceu ou foi inventado pela criança. Para isso, a história cria um protagonista complexo, capaz de atitudes contraditórias nos âmbitos profissional e pessoal da vida. A todo momento, a trama estabelece uma espécie de jogo, que apresenta evidências, relatos e reações sobre a inocência ou culpa do professor.

A discussão do filme, na verdade, vai muito além da construção dos personagens e da complexidade da trama. “Aos Teus Olhos” se propõe a abrir uma discussão sobre o mundo em que vivemos, especialmente em relação às influências das redes sociais no dia a dia. O comportamento da mãe de Alex, que acusa precipitadamente e ajuda na disseminação desse conteúdo, é o espelho do que vemos praticamente todos os dias na internet: informações imprecisas, sem qualquer checagem, compartilhadas e repassadas em uma velocidade absurda.

As acusações contra o professor de natação, naquele momento ainda sem qualquer investigação, levam ao linchamento virtual de Rubens, que passa a ser hostilizado e vira alvo de manifestações acaloradas e, até mesmo, violentas. Nesse aspecto, o filme também abre um diálogo sobre a força dos “tribunais da internet”, que cria falsos juízes protegidos do conforto de seus lares e que, sem qualquer responsabilidade ou comprometimento com a veracidade da informação, podem cometer injustiças e até destruírem vidas.

Explorando bem as ambiguidades do roteiro, “Aos Teus Olhos” é daqueles filmes que se propõe a abrir uma discussão importante sobre o momento atual do mundo, que convive com o poder dado pela internet, geralmente usado de forma irresponsável. A força das informações imprecisas e dos “tribunais” online, capazes de julgar sem justiça, mesmo pregando o contrário, devem ser questões cada vez mais debatidas para que consigamos fazer melhor uso de uma ferramente inegavelmente importante.

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