Por Erick Rodrigues

Do que é feito um clássico? De tantas respostas possíveis e, até mesmo, subjetivas, a principal talvez seja: o tempo. A capacidade de resistir ao passar dos anos e, ainda assim, se manter relevante cria os clássicos das mais diversas áreas. Em alguns casos, o tempo ajuda a fazer justiça a uma obra, que pode ter sido considerada “estranha” ou “pretensiosa” quando lançada e, anos depois, encontrar um consenso sobre sua relevância.

“2001 – Uma Odisseia no Espaço”, uma das grandes obras do cinema, completou 50 anos de lançamento e, após esse meio século, reforça a relevância de um clássico para as artes, ainda mais em tempos em que poucos trabalhos conseguem se destacar com a mesma força diante de um mundo formado por informações rápidas e descartáveis.

Um clássico do cinema é formado por sequências visualmente impactantes e enredos inspiradores, características muito presentes em “2001”. Poucas cenas têm a força da criação do diretor Stanley Kubrick ao retratar o macaco, ancestral do homem, e o contato inicial com um monte de ossos. Aos poucos, após mexer e remexer, o animal descobre a transformação daquele objeto em uma arma, que serve a ele para delimitar espaço e construir uma relação de poder. Jogado para o alto, aquele osso logo nos transporta para o futuro da evolução, direto para o espaço.

Escrito ao lado de Arthur C. Clarke, autor do conto “O Sentinela”, o roteiro de Kubrick se divide em quatro atos para falar sobre a trajetória do homem, de onde veio e para onde vai. Com a intenção de refletir sobre o futuro, o longa começa voltando ao passado e falando sobre os primeiros passos do nosso ancestral primata. Mesmo lá atrás, há um sinal do desconhecido: um monolito alienígena que desperta mais dúvidas do que respostas.

Depois, em um salto no tempo, o homem se vê desbravando a imensidão e o silêncio do espaço. Nessa viagem, surge outra discussão relevante. Mandados para uma missão em Júpiter, os astronautas Dave Bowman (Keir Kullea) e Frank Poole (Gary Lockwood) estão acompanhados do computador Hal 9000, que controla todo o funcionamento da nave, inclusive os sinais vitais de outros astronautas que hibernam. Algumas dúvidas, no entanto, começam a surgir: a máquina que nunca falha pode, enfim, ter se enganado? Teria ela emoções humanas? Qual o limite de uma inteligência artificial?

Foto: Divulgação

O ato final de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, talvez o mais enigmático do filme, propõe ao espectador uma instigante viagem no tempo e no espaço, fazendo com que um homem se depare com muitas versões de si mesmo, que destacam a evolução e o ciclo da vida.

As principais obras de arte podem dividir opiniões e “2001” não foge a essa regra. Idolatrado por uns e mal visto por outros, o longa traz à tona muito mais dúvidas do que certezas. Esse é um dos aspectos que pode criar um clássico: a capacidade de gerar questionamentos e de se apresentar como um quebra-cabeça, que pode ser montado de formas diferentes a cada sessão do filme. Não fuja da obra se não compreendê-la totalmente da primeira vez, afinal, talvez ninguém seja capaz de entendê-la plenamente algum dia.

Indicado a quatro categorias no Oscar, venceu apenas o prêmio de melhores efeitos especiais. E, que efeitos… “2001 – Uma Odisseia no Espaço” revolucionou o gênero da ficção científica e influenciou toda uma geração de criadores desse tipo de história. Cores, designers arrojados para a época e a proposta de desafiar os conceitos de espaço do espectador são alguns dos destaques do longa, que também traz uma marcante trilha sonora. Clássicos da música, como “Assim falou Zarathustra”, de Richard Strauss, e “Danúbio Azul”, de Johann Strauss, ajudam a construir um clássico do cinema.

Nem toda grande obra é perfeita e essa é mais uma característica de “2001”, que possui um roteiro longo, que prolonga acontecimentos além do necessário. Mesmo assim, com o tempo, entende-se que aquele é o tempo proposto por Kubrick para essa reflexão.

É preciso reconhecer que “2001 – Uma Odisseia no Espaço” é um filme difícil, que se sustenta pelo ritmo mais lento e por silêncios estrondosos. Vale a pena mergulhar nos enigmas propostos pela obra de Kubrick, que, como já dito, talvez nunca tenham explicação. Cinquenta anos depois do lançamento, esse é um dos grandes méritos do longa: continuar despertando dúvidas em um mundo cada vez mais cercado por “certezas”. Um dos poucos que provam o significado e a relevância dos clássicos.