“American Crime Story” se aprofunda em assassino e perde força com “barriga” do roteiro

Darren Criss vive Andrew Cunanan, o assassino de Versace - Divulgação

Por Erick Rodrigues

Anunciada após uma bem sucedida temporada sobre o julgamento de O.J. Simpson, a antologia “American Crime Story” chegou à segunda temporada com o subtítulo “O Assassinato de Gianni Versace”, mas, depois da exibição dos nove episódios da história, ficou claro que a escolha não faz jus ao foco central da narrativa. O famoso estilista, vítima do crime que abre a trama, é, na verdade, um mero coadjuvante diante de Andrew Cunanan, esse sim o personagem que move a temporada, que deveria, na verdade, ter sido chamada de “O Assassino de Gianni Versace”.

Foco central do episódio de estreia da temporada, Versace (Edgar Ramirez) vai, aos poucos, ficando de lado em um roteiro que procura mostrar a trajetória de Cunanan (Darren Criss) até o assassinato do estilista. Com uma narrativa não-linear, “American Crime Story” foca na personalidade doentia do criminoso, um mentiroso patológico com mania de grandeza, solitário e carente de afeto. Para isso, o roteiro mostra outros relacionamentos de Cunanan, que se transformam em potenciais vítimas dele.

Após apresentar detalhes da relação de Cunanan com David (Cody Fern) e Jeffrey (Finn Wittrock), a narrativa mergulha no passado do assassino. Primeiro, é mostrada a relação dele com a mãe, Mary Ann (Joanna Adler), claramente afetada por problemas psicológicos. Depois, o roteiro revela o relacionamento abusivo do garoto com o pai, Modesto (Jon Jon Briones), que alimenta altas expectativas sobre o filho preferido e praticamente ignorava a existência dos outros. A história também insinua que houve abuso sexual e que, já crescido, o futuro assassino absorveu o talento do pai para a arte da mentira, que mesmo sofisticada, não dura para sempre.

Diante de tantos detalhes sobre a vida do assassino, “American Crime Story” explora pouco a vida pessoal e profissional de Versace, a vítima mais conhecida de Cunanan. Na verdade, por muitos episódios a série se esquece do estilista, deixando para explorar, apenas nos capítulos finais, o diagnóstico de câncer dele e as tentativas em preparar a irmã, Donatella (Penélope Cruz), para comandar a famosa grife.

Produzida por Ryan Murphy, “American Crime Story” começou exibindo muitas qualidades, como a força da narrativa instigante, revelada fora de uma ordem cronológica, e os diálogos marcantes. A escolha do roteiro em se debruçar sobre a construção da personalidade de Cunanan revelou, no entanto, o principal defeito da série: a “barriga”. A dedicação excessiva em mostrar determinados momentos da vida do assassino acaba criando repetições e sequências demasiadamente prolongadas, que pouco contribuem com a intenção de definir e aprofundar a construção do personagem.

Edgar Ramirez e Penélope Cruz vivem Gianni e Donatella Versace – Divulgação

Essa escolha, que ajudou a deixar de lado a história da vítima mais célebre do assassino, deixou uma sensação de que a trama poderia ter sido tranquilamente contada em quatro ou cinco episódios, já que os principais acontecimentos ficam restritos ao começo e ao fim da temporada. Quase todo o resto, mesmo que haja bons momentos, fica marcado pelo sentimento de repetição.

Um ponto interessante da série do canal FX, que deve ser destacado, é a intenção bem sucedida de usar acontecimentos das trajetórias dos personagens para revelar o cenário da época para os gays, alvos de um preconceito cruel da sociedade ao mesmo tempo em que experimentavam formas de liberdade.

O estilo marcante de Ryan Murphy, bem visível desde o primeiro episódio, mostrou que o produtor e diretor vem apurando o senso estético com o passar dos anos. Ainda apostando em certos exageros, agora, Murphy sabe onde colocá-los e dosa muito bem essa estética com a intensidade do roteiro.

Outra boa qualidade é o desempenho dos atores, que constroem personagens marcantes. Darren Criss é, sem dúvida, o nome da série, emprestando intensidade e vigor ao assassino. Edgar Ramirez e Penélope Cruz também se destacam, mesmo com a sensação de terem tido menos tempo de tela do que mereciam.

Com um começo instigante, “American Crime Story” foi perdendo força por conta da “barriga” do roteiro, que criou momentos arrastados e repetitivos. Retornando à história central nos últimos episódios, a série recupera o prumo e termina de forma satisfatória, mesmo com as marcas causadas por uma trama que poderia ser mais sucinta.