A Rainha que recebe um salário menor do que o príncipe

Claire Foy e Matt Smith em "The Crown" - Divulgação

Por Erick Rodrigues

Um dos conflitos de “The Crown”, série que retrata o reinado de Elizabeth II, é o evidente incômodo do marido da Rainha, o príncipe Phillip, com o papel coadjuvante atribuído a ele dentro da monarquia no Reino Unido.

Na série do Netflix, que já teve duas temporadas exibidas, o príncipe demonstra insatisfação pelo fato de ficar de fora das principais discussões da Coroa. Também se incomoda de cuidar da educação e atividades dos filhos enquanto a esposa, a Rainha, se coloca como a figura central da monarquia. O desconforto é tanto que ele só vira príncipe depois de convencer Elizabeth a lhe dar o título para ser mais respeitado, deixando de ser um “simples” duque.

Enquanto a Rainha da ficção está em uma posição mais privilegiada do que o marido, na vida real, a atriz Claire Foy, intérprete da monarca, virou o mais novo exemplo da desigualdade salarial entre homens e mulheres, que, como não poderia deixar de ser, também atinge Hollywood e a indústria do entretenimento.

Durante uma conferência sobre televisão, em Israel, os produtores de “The Crown”, Suzanne Mackie e Andy Harries, revelaram que a atriz recebeu um salário menor do que Matt Smith, que viveu o príncipe Philip nas duas temporadas.

Claire Foy interpreta a figura central da série, tem o melhor desempenho do elenco, foi indicada ao Emmy e venceu o Globo de Ouro pelo papel. Isso posto, fica a pergunta: por que, então, recebe menos do que o protagonista masculino?

A verdade é que, seja em Hollywood ou no dia a dia de milhares de mulheres, essa é uma discussão cada vez mais pertinente e ainda distante de fazer justiça ao sexo feminino. Ficando na vida real, recentemente, um relatório do Fórum Econômico Mundial mostrou que a equidade de salários entre os gêneros, no ritmo atual, só aconteceria em 170 anos.

Voltando à indústria do entretenimento, atrizes engajadas em diminuir esse tempo para a equiparação têm assumido posições incisivas e importantes para mudar isso. O exemplo mais recente é Ellen Pompeo, a protagonista da série “Grey´s Anatomy”, um dos maiores sucessos da TV aberta norte-americana.

Neste ano, a intérprete da médica Meredith Grey virou o jogo e se tornou a atriz mais bem paga da televisão, recebendo mais de US$ 550 mil por episódio. Mesmo fazendo a personagem central, no entanto, Ellen revelou que chegou a ganhar menos do que Patrick Dempsey, o protagonista masculino, que deixou a atração há três anos. A série continuou sem ele, mas perderia todo o sentido sem ela.

Após a divulgação da diferença salarial, os produtores de “The Crown” garantem que, a partir de agora, ninguém vai ganhar mais do que a Rainha Elizabeth da ficção. A medida, no entanto, não vai privilegiar Claire Foy, que deixa a personagem por conta da cronologia da história. Mas, isso pode beneficiar Olivia Colman, que assume o protagonismo da série.

Os produtores prometem que a desigualdade salarial vai mudar em “The Crown”, mas ainda há muito a percorrer na própria indústria do entretenimento e nos outros setores profissionais. Ainda prevalece o machismo, os questionamentos sobre a capacidade física e as dúvidas sobre uma possível dedicação dividida entre trabalho e maternidade.

Essa mudança ainda é formada por poucos grãos de areia, mas a praia precisa ser criada de qualquer jeito. Por isso, mesmo no mundo artístico e distante da realidade diária, a exposição de casos como esse e o resultado dessas discussões são importantes para construir uma justa igualdade.