Chico Felitti, colaboração para a Folha

Novas plataformas pretendem ser ponte tecnológica entre dinheiro e beleza; Brasil é mercado promissor para setor; continuidade e livre arbítrio definem diferença da relação ‘sugar’ para prostituição, diz dono de aplicativo

“É tipo Tinder, mas um Tinder em que você ganha dinheiro em vez de gastar dinheiro pra sair em ‘dates'”, diz a estudante de moda Sarah, 24, enquanto folheia fotos de homens em um aplicativo na tela do seu celular. Ela, que nunca trabalhou, era adepta do Tinder, que serviu para ela conhecer cerca de dez homens, há dois anos. Mas faz duas semanas que baixou outro aplicativo, chamado Sudy, que serve para juntar mulheres a homens ricos (“sugar daddies”, em inglês) que querem parceiros(as) sexuais e /ou afetivos(as) que aceitem presentes (“sugar babies”).

O aplicativo, um dos mais acessados do mundo no segmento do namoro com interesse, aportou no Brasil há poucas semanas. “A gente sempre teve um interesse no mercado brasileiro”, diz o americano Woody Sudy, que gerencia a marca. O país já é um dos cinco que mais usa o aplicativo, junto com México, Reino Unido, Canadá e EUA. Segundo o site do Sudy, há mais de 3 milhões de usuários. A expectativa é conquistar um milhão de novos usuários em 2018, com o Brasil conduzindo o crescimento. Para ter acesso ao pacote Premium por um mês, o que pode potencializar novas conexões desembolsa-se US$ 15 (cerca de R$ 50).

No Meu Patrocínio, similar, é necessário gastar R$ 199 para receber mensagens de “sugar babies” interessados(as). No aplicativo, homens geralmente são os provedores, restando às mulheres via de regra o papel de dependente. Não seria machismo? “É uma questão interessante. Eu preciso responder que, além do aplicativo principal Sudy, temos também outros, como o Sudy Cougar [para mulheres mais velhas que querem sair com homens jovens], Sudy Gay.” A versão do Sudy testada pela reportagem já aceitava a inscrição de homens e mulheres tanto como provedores -sugar daddy ou mommy- ou como sugar baby. O executivo afirma que estudou o mercado brasileiro e encontrou ali um nicho. “Mulheres jovens se casam com homens que têm idade para lhes deixar uma pensão quando morrerem. Ainda que essa não seja a nossa definição de encontros ‘sugar’.”

“A distância entre ricos e pobres na América do Sul é muito grande. Como usar recursos limitados para conseguir ter uma mobilidade de classe?”, diz o empresário.

FETICHE

“Entrei pela farra”, diz um chef renomado, que comanda uma cozinha de restaurante sofisticado nos Jardins, e foi encontrado pela Folha no aplicativo. “Acho que tem uma coisa de fetiche, de você ser forte e admirado pela mulher.” Ele, que prefere não ser nomeado, diz que teria uma relação em que pagasse mesada para a namorada. “Desde que ela estivesse disponível para mim. “Ele refuta se tratar de prostituição continuada. “Os americanos puderam ser educados das diferenças entre um relacionamento ‘sugar’ e a velha prostituição, então por que os brasileiros não poderiam?” O executivo diz que a diferença entre vender sexo e trocar sexo ou afeto por favores e presentes é que, no segundo caso, há um relacionamento fixo, além de consensual. “Tudo começa e termina com o livre arbítrio.”

Muitos dos aplicativos do gênero não permite que usuários de países em desenvolvimento, como o Brasil, se inscrevam. Há outras redes sociais do tipo abertas para brasileiros, como Meu Patrocínio. A chinesa Yu, relações públicas de 23 anos, que está de mudança para Pequim, usa o app há mais de um ano e se encontrou com dois homens. “Ambos depois de conversar por semanas.”O que não evitou uma má experiência. “Ele ofereceu ¥ 10.000 [cerca de R$ 5.000] para comprar uma noite comigo. Foi um saco. Eu não estava me prostituindo” Depois de meses afastada do app, ela tentou de novo – está saindo há oito meses. Além de ter pago pelo último ano de faculdade, o mecenas alugou um flat para ela morar, em Chengdu, e se hospeda com ela quando está na cidade. O executivo, 12 anos mais velho que ela, “não é muito bonito, mas é limpo e temos os mesmos gostos”. “Não espero encontrar o amor da minha vida”, diz Sarah. “Mas se pelo menos for um cara que goste de mim, me dê coisas e não seja um embuste, já está bom.”